domingo, 6 de março de 2011

SERÁ O FIM DO DEM ????

Novo partido: PDB significa o fim do DEM?

Andréia Bahia
2011-02-21 - 08:55:00

O ano era 1988. No Congresso, a Constituição Federal era engendrada e o clima de divergência crescia dentro do PMDB devido à criação de um grupo de centro-direita contrário a regras mais progressistas. Do descontentamento de alguns peemedebistas surgiu o PSDB, em junho de 1988, pelas mãos de políticos da estatura de Franco Montoro, Mario Covas, Fernando Henrique Cardoso, Afonso Arinos e José Richa, defensores do parlamentarismo. A criação do PSDB representa uma das principais movimentações partidárias experimentadas pelo País. 
 
Vinte e três anos depois o Brasil vive a expectativa de outra ruptura importante no quadro partidário, patrocinada pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM). Ele lidera uma dissidência que pode vir a dar origem ao Partido da Democracia Brasileira (PDB). “É, sem dúvida, a tentativa mais ambiciosa desde a criação do PSDB”, avalia o cientista político e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Fábio Wanderley dos Reis.
 
Semelhante na forma, diferente no conteúdo. “Não se compara Mário Covas e Fernando Henrique com Kassab. O que Kassab propõe é o partido business, do negócio, do interesse. O PSDB surgiu de uma rebelião feita com conteúdo, estatuto programático, linha social democrática, se rebelando contra as práticas de um partido que estava alinhado com a estrutura de governo”, afirma o deputado Ronaldo Caiado (DEM). 
 
O PSDB nasceu sob o lema “longe das benesses oficiais, mas perto do pulsar das ruas”, e nos moldes da social-democracia europeia. Com o novo partido, Kassab não apresenta uma nova proposta de partido, busca espaço eleitoral para disputar o governo de São Paulo em 2014. “Na verdade, está todo mundo querendo antecipar a sucessão de 2014 para 2011, há uma certa pressa, que não é correta porque não vai ajudar ninguém querer antecipar três anos um processo de composição política. É um equívoco”, analisa Marco Antônio Villa, historiador e professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Para o deputado federal Ronaldo Caiado, a estratégia de Kassab visa apenas a adesão ao governo federal. “Ninguém quer criar partido. Quer é aderir ao governo, apesar de ter sido eleito para fazer oposição, mas como a fidelidade partidária impede essa adesão, cria-se um partido, que na casa já ganhou o nome de Partido da Boquinha, PDB, e depois faz uma coligação com o PSB para entrar para a base do governo. Isso é uma excrescência.” A fusão entre o novo partido de Kassab e o PSB já vem sendo discutida com o presidente da legenda socialista, Eduardo Campos (PE). O objetivo seria criar uma terceira via frente à polarização PT e PSDB. “Algo improvável, mesmo diante de tudo que se vê de inconsistente na política partidária brasileira, isso é um caso extremado e provavelmente pouco viável”, analisa Fábio Wanderley dos Reis. 
 
Na opinião de Marco Antônio Villa, Kassab busca, com a criação de uma nova legenda, aumentar seu papel na cena estadual, haja vista o pífio resultado que a legenda conquistou na eleição. Ele busca também visibilidade no cenário nacional. Kassab já teria inclusive convidados os goianos Armando Vergílio (PMN) e Thiago Peixoto (PMDB) para fundar o PDB no Estado. “Ele está fazendo todas as movimentações, ora ameaça ir para o PMDB, ora ameaça ir para o PSB, ora ameaça ficar no DEM e ora diz que vai criar um novo partido, o PDB. Está fazendo vários movimentos para, a partir dali, ver qual é o melhor caminho a seguir. Acho que tem muito blefe. Precisamos dar tempo ao tempo para ver o que vai ocorrer”, afirma Villa. 
 
 
Aproveitador
 
Blefe que estaria relacionado com a eleição para governador em São Paulo. O DEM paulista é aliado de Geraldo Alckmin (PSDB), governador e provável candidato à reeleição em 2014. Kassab quer disputar o pleito e tem o aval de José Serra (PSDB), mas não da legenda. “Kassab é uma pessoa que a vida inteira se beneficiou do partido, só foi prefeito e candidato a vice porque o partido o apoiou e, no momento em que o partido vive um período delicado de redução da bancada, ele pensa no projeto pessoal e vira as costas para o partido e ainda fica ameaçando levar mais tantos deputados”, reclama Ronaldo Caiado, que considera Kassab um político tóxico: “Aonde ele chega, contamina no intuito de só prevalecer a tese dele”.
 
O deputado federal democrata, secretário-chefe da Casa Civil do Estado, Vilmar Rocha, acredita que a saída de Kassab ainda pode ser revertida. “O caso do Kassab é um caso paulista. Ele quer fazer uma aliança com o PMDB em São Paulo em 2014 e está trabalhando esta estratégia. Ele nunca declarou que vai sair nem para qual partido, acho que esse movimento é reversível.” Na opinião de Caiado, Kassab não quer apenas deixar o DEM, mas destruir a legenda. “Eu acho isso um jogo tão baixo, uma prática tão abominável, além de querer sair ainda vai trabalhar para destruir o partido.” 
 
Caso o prefeito de São Paulo deixe o DEM, o partido corre mesmo sérios riscos de sucumbir. “Minha impressão é que a saída de Kassab determina o fim do DEM. É difícil dizer categoricamente, mas Kassab é o último grande triunfo do DEM e, com o afastamento dele, o partido vê suas perspectivas mais negativas do que tem sido recente. Acho que a tendência é acabar”, analisa Fábio Wanderley.
 
Na opinião do democrata Vilmar Rocha, o DEM não acaba se Kassab sair, “mas vai virar um partido nanico, pequeno, inexpressivo”. Caiado acredita que a legenda vá se reestruturar fortemente a partir do seu tempo de televisão. “Vai criar um novo estilo de gestão. O MDB se reuniu para se extinguir e depois fundou o maior partido do Brasil. Estas coisas são cíclicas, um movimento normal porque tem a fadiga de material, isso acomete todos os partidos.” 
 
Mas se Kassab sair ele pode levar mais políticos importantes da sigla, como Jorge Bornhausen (SC) e a senadora Kátia Abreu (TO). Há chances de o PDB, se vingar, ficar com parte do tempo de televisão e do Fundo Partidário do DEM. Vilmar Rocha observa que o PSol criou um precedente quando conseguiu obter do PT parte do tempo de televisão e do Fundo Partidário, o que Caiado nega. Segundo ele, a previsão legal se limita à criação de uma nova legenda, desde que se cumpra a regra dos 0,5% dos eleitores brasileiros. “Ninguém está impedindo que se faça um novo partido, mas ele não terá tempo de rádio e de televisão nem participação no Fundo Partidário”, afirma o deputado democrata. “Aí ele vai para a tese da fusão com o PSB, porque a (presidente) Dilma não autorizou fundir com o PMDB.” 
 
Este reordenamento partidário, que envolve não apenas o DEM, mas também o próprio PSDB, é, em parte, consequência da derrota nas urnas.  Segundo Marco Antônio Villa, a derrota, em certas circunstâncias, leva a reordenamentos. “No caso da oposição, ela está procurando seu caminho e não acho que o melhor caminho seja fazer uma reorganização partidária.” Para Ronaldo Caiado, o momento era de recolher os feridos, avaliar os resultados e reestruturar a legenda para o novo embate de 2012. “E Kassab já entrou dizendo que o partido não teria chance, que teria que caminhar para a composição com o PMDB e colocou o projeto pessoal acima do partido, de todo mundo.”
 
Mas na opinião de Vilmar Rocha, a situação que o DEM se encontra reflete mais que o fracasso nas urnas. “É resultado de erros cometidos pela atual executiva, erros primários, mais em função disso que da derrota, mas a derrota ajuda.” Para evitar a saída de Kassab, o DEM se reuniu na semana passada e decidiu abrir vagas na executiva nacional para encaixar aliados do prefeito de São Paulo. O ex-deputado Índio da Costa, ligado a Kassab, ganhou assento na executiva . Segundo Vilmar Rocha, a divisão interna do partido reflete a indisposição de parte da legenda em relação a atual executiva nacional, sobretudo o presidente. Na opinião do deputado democrata que trocou a Câmara pela Casa Civil, o DEM tem duas alternativas até dia 15 de março: “Faz um acordo ou haverá uma divisão no partido podendo, inclusive, muitos integrantes até deixarem a legenda.”  Na avalição de Ronaldo Caiado, a tentativa de Kassab de criar um novo partido é um artifício, “já que eles não ganharam a liderança e querem ter o controle do partido para fazer uma fusão com outro e aderir ao governo”. 
 
Boatos dão conta que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) também vem articulando a criação de uma nova legenda de oposição mais moderada. O senador mineiro desmente a informação de que poderia mudar de partido ou criar uma nova sigla. Mas há mesmo uma tentativa de reordenamento dentro dos partidos políticos, afirma Marco Antônio Villa. “Tanto o PSDB como o DEM estão num processo interno de reordenamento que pode levar ou saída eventualmente de algum político de de expressão ou a formação de novos partidos.”
 
 
Muito trabalho
 
No entanto, o historiador não acredita que Aécio Neves deixe o PSDB. Segundo ele, políticos expressivos podem pensar em trocar de legendar depois da eleição municipal de 2012. “Querer sair agora e formar um novo partido é algo que dará muito trabalho e eu não creio que Aécio sairia do PSDB, como não creio que Serra saia do PSDB. Acho que há uma disputa interna muito forte dentro da sigla tucana e os dois vão monitorar o que vai acontecer em 2012.” 
 
Do ponto de vista da possibilidade, Fábio Wanderley afirma que ainda é cedo para analisar se há chance ou espaço aberto para novas siglas. “O PSDB está em dificuldade, há muitas pressões internas e a coesão está meio comprometida, mas fixar junto ao eleitor a imagem de um novo partido é problemático”, afirma. Na avaliação do professor da UFMG, o senador tucano é capaz de enfrentar internamente Serra e levar vantagem. “Principalmente depois das duas derrotas de Serra a presidente, especialmente por causa desta última porque isso custou muito em termos de desgaste pessoal a José Serra.”
 
Segundo Fábio Wanderley, do ponto de vista do cálculo do senador Aécio Neves a transição para um novo partido pode não ser melhor aposta que topar uma briga interna. “Se houvesse coesão maior dentro do PSDB claro que não teria razão para Aécio procurar uma alternativa como essa, a simples permanência no partido e a tentativa de ser candidato a presidente da República como integrante do PSDB. Claramente, essa opção é consequência das dificuldades geradas pela crise interna do partido.” 
 
Esse reordenamento partidário, nada mais é que a falta de rumo da oposição, na opinião de Marco Antônio Villa. Mas antes de propor uma reorganização dos partidos, o historiador defende que as legendas de oposição reorganizem as ideias e propostas políticas a ser colocadas para a sociedade. “O que a oposição propõe para o Brasil que é diferente do que o governo está propondo? Está é questão central.” 
 
Na avalição do historiador, a oposição está cometendo um erro ao priorizar os projetos personalistas nesse momento. “No fundo, para onde vai o Aécio, para onde vai Serra, para onde vai Kassab são projetos personalistas. A oposição deveria primeiro insistir na sua proposta para o Brasil.” Nunca é demais lembrar, observa Villa, que no segundo turno José Serra obteve 44 milhões de votos. “Eleitores que apoiaram sua proposta de governo. Se a oposição continuasse no caminho da discussão de proposta, em termo políticos, seria mais eficaz que pensar em reordenamento partidário e em projetos pessoais.”
 

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